Um cafeicultor de Minas Gerais planta culturas de cobertura, migra para insumos biológicos, protege as nascentes da propriedade e atravessa uma seca sem perder produtividade. Mas nada disso aparece quando ele vai ao banco pedir um empréstimo para financiar a próxima etapa de melhorias. O sistema financeiro ainda não tem uma forma consistente de reconhecer ou registrar avanços na agricultura regenerativa, e por isso o investimento desse produtor permanece invisível no papel. Sem solução, esse ponto cego se torna algo maior: um risco crescente na cadeia de suprimentos para toda empresa que compra dele.
Essa lacuna foi o ponto de partida para uma oficina realizada em 2 de setembro na Fazenda Rainha da Paz, em Patrocínio, Minas Gerais, parte do Fórum Regeneração Territorial promovido pelo Cerrado das Águas. Poucos dias depois de a plataforma lançar seu novo posicionamento estratégico, representantes de todos os setores (empresas, financiadores, produtores, instituições públicas e organizações da sociedade civil) se reuniram para discutir uma questão prática: o que seria necessário para transformar o potencial regenerativo de um território em projetos capazes de atrair e absorver capital em escala?
A oficina reuniu duas frentes de trabalho. Ao longo de 2026, o Landscape Accelerator Brazil (LAB), iniciativa liderada pelo setor privado desenvolvida por WBCSD, BCG e CEBDS, apoiou o Cerrado das Águas na construção de seu caminho de investimento, com base em um diagnóstico feito com mais de 15 investidores brasileiros e internacionais sobre o que o capital precisa ver na agricultura regenerativa antes de se comprometer. Paralelamente, LAB, Regen10 e Olab conduziram o Engajamento Brasil 360, ouvindo produtores de café e soja sobre o que precisam para fazer a transição, usando o Marco de Resultados do Regen10 para organizar a análise. A oficina colocou os dois conjuntos de achados diante das pessoas que financiam, compram e regulam, para que cada uma saísse com mais clareza sobre seu próprio papel.
Isso se soma a uma agenda mais ampla. No início de 2026, os diálogos do Money Talks, as discussões sobre soja e pecuária do FOLUR/Banco Mundial e a Cúpula Brasil de Soluções esbarraram nos mesmos obstáculos: projetos fragmentados, MRV (monitoramento, relato e verificação) caro e fragmentado, pouco compartilhamento de risco, pipelines de investimento rasos e produtos financeiros que não acompanham o tempo que uma transição agrícola realmente leva. Para as empresas, o problema é concreto: seus compromissos de clima, natureza e agricultura regenerativa dependem de mudanças que acontecem nas fazendas e nos territórios, longe dos escritórios corporativos. O Cerrado Mineiro ofereceu uma forma de examinar esses obstáculos em um território real, partindo do que os próprios produtores tinham a dizer.

O que os produtores nos disseram
Coliderado por LAB e Regen10*, com escuta conduzida pela Olab, o Engajamento Brasil 360 combinou dados, entrevistas e validações em campo. O estudo focou em cafeicultores do Triângulo Mineiro e, em menor escala, em produtores de soja e rotação de culturas do MATOPIBA e Mato Grosso. Esta foi a primeira aplicação prática do Marco de Resultados da Regen10, usando suas doze dimensões sociais, ambientais e econômicas para interpretar a realidade local e testar as premissas de investimento do LAB, sem impor checklists.
Muitos dos produtores consultados já adotam práticas associadas à agricultura regenerativa: culturas de cobertura, insumos biológicos, plantio direto, rotação de culturas, melhor manejo de solo e água. Os problemas começam quando tentam escalar essas práticas.
Os cafeicultores, marcados pelas recentes secas e geadas, apontaram quatro prioridades: infraestrutura de água e irrigação, crédito acessível, assistência técnica especializada e retorno consistente do mercado. Eles veem o manejo regenerativo como uma espécie de seguro para o futuro da propriedade, mas enfrentam custos iniciais altos, dificuldade de acesso a financiamento e mercados que não remuneram de forma consistente o valor que criam. Um grupo menor de entrevistas com produtores de soja, alcançados principalmente por redes de organizações parceiras, levantou preocupações econômicas semelhantes: margens, infraestrutura, crédito diferenciado, MRV que seja realmente prático, e pesquisa adaptada às condições locais. A amostra foi pequena, então esses achados devem ser lidos como sinais iniciais, não como um retrato completo da cadeia produtiva.
Dois achados são os mais relevantes para o debate sobre financiamento:
- As maiores barreiras costumam estar fora do controle do produtor. Um produtor pode recuperar o solo, mas não consegue fazer com que um banco reconheça essa resiliência em uma análise de crédito, e dados que nunca influenciam crédito, seguro ou preço acabam não valendo muito.
- A governança raramente aparece espontaneamente. Os produtores falaram principalmente sobre solo, água, cultivos, insumos e economia. A coordenação territorial só entrava na conversa quando um facilitador a trazia, mesmo que muitos dos resultados prometidos pela agricultura regenerativa, relacionados a água, biodiversidade e resiliência, dependam de colaboração entre propriedades vizinhas.

Sentando todos os atores na mesma mesa
A oficina foi desenhada em torno desses achados. Os participantes começaram nos cafezais, onde o próprio dono da fazenda contou sua trajetória de transição. Em seguida, Olab e LAB apresentaram o que haviam ouvido de produtores e investidores, e onde os dois lados não se encontram. O restante da manhã foi dedicado a grupos menores discutindo três questões:
- como financiar a transição;
- que dados, assistência técnica e acesso a mercado são necessários para viabilizar esse financiamento;
- e como governar a regeneração em escala territorial, tema que os próprios produtores raramente haviam levantado por conta própria.
As decisões que tornam a agricultura regenerativa financiável dependem umas das outras, mas costumam ser tomadas de forma isolada. Os produtores sabem o que funciona melhor em seu contexto. As empresas têm as relações com fornecedores, interesse comercial direto na estabilidade e produtividade dos territórios de onde compram, e precisam mostrar progresso mensurável em suas metas de clima e natureza. Os bancos decidem quais riscos financiar e em que condições. As instituições públicas moldam o crédito rural, o seguro e a regulação. Organizações territoriais como o Cerrado das Águas têm as relações, a capacidade de implementação e a legitimidade local para coordenar entre propriedades. Reunir todos esses atores em uma mesa transforma um problema amplo de financiamento em uma discussão concreta sobre quem precisa fazer o quê.
O que ouvimos em Patrocínio

O risco da transição recai sobre o produtor, e o fluxo de caixa é o verdadeiro gargalo
Os participantes descreveram um sistema em que os produtores arcam com o custo de uma transição da qual toda a cadeia depende. São eles que cuidam da terra, e são eles que absorvem a pressão de preço tanto no que compram quanto no que vendem. A restrição à qual voltavam sempre não era a taxa de juros, mas o fluxo de caixa. Simulações apresentadas na oficina mostraram que mesmo um corte expressivo de juros não resolveria o problema de quem vive de uma safra para a outra. A transição traz retornos positivos, mas geralmente só depois de quatro a cinco anos (de sete a dez para algumas práticas), com possíveis perdas nos primeiros anos, e os prazos de carência atuais não acompanham esse ritmo. As taxas anunciadas também podem enganar: um participante relatou uma linha de crédito “subsidiada” contratada a 6% que, somando garantias, tarifas e custos de estruturação, chegou a 14%.
As propostas foram específicas. Prazos de carência compatíveis com a duração da transição, desembolsos plurianuais vinculados a entregas acordadas, e crédito acompanhado de assistência técnica e apoio à gestão. As condições poderiam recompensar desempenho, de modo que produtores que atingissem indicadores acordados tivessem taxas menores, prazos mais longos ou menos exigência de garantia, com a Embrapa validando esses indicadores como parte neutra. Os participantes também apontaram a má gestão financeira, mais do que o clima, como a principal causa de inadimplência, e sugeriram segmentar os produtores por perfil (se contam ou não com gestão financeira estruturada, situação fundiária, cultura e escala) em vez de apenas por tamanho.
O que falta são projetos bancáveis, não capital
As instituições financeiras ouvidas no diagnóstico do LAB foram claras: o capital existe e está em busca de projetos para ser alocado. O que falta é originação, ou seja, cases de negócio, governança e demonstrações financeiras confiáveis. As taxas são altas porque o risco percebido é alto, e os modelos de risco construídos sobre dados históricos têm dificuldade quando o próprio clima está mudando.
Uma ideia discutida foi contabilizar um “retorno financeiro da resiliência”, já que boa parte do valor das práticas regenerativas vem de resultados mais estáveis e de perdas menores em anos ruins, não apenas de produtividade mais alta. Mas precificar essa resiliência corretamente ainda exige absorver o risco inicial, e os participantes apontaram uma tranche de primeira perda de 10% a 20% como a peça que falta. Bancos de desenvolvimento e multilaterais podem oferecer prazo e taxa, mas não assumem sozinhos o risco de projetos agrícolas.
Os participantes sugeriram realocar parte dos recursos públicos hoje usados em equalização de taxas de juros para garantias e capital subordinado. Também observaram que as regras de crédito rural no Brasil ainda não vinculam o financiamento a práticas regenerativas.
As empresas podem ancorar demanda com contratos de offtake e formar consórcios pré-competitivos com papéis bem definidos, começando por um memorando de entendimento e deixando estruturas jurídicas mais complexas para depois. É o envolvimento das empresas que atrai outros tipos de capital, de fundos concessionais a family offices e investidores de impacto.
Uma pergunta ficou em aberto: os bancos comerciais conseguirão se afastar da precificação atrelada à taxa interbancária brasileira mais um spread, ou a transição vai depender de outros tipos de capital?
Dado só vale a pena quando é aplicável
Os participantes relataram um excesso de pedidos de dados e metodologias, muitas vezes sem uma forma viável de coletar essas informações e sem uso prático depois. Os indicadores definidos por financiadores tendem a ser lineares e desconectados da realidade das fazendas. Alguns insumos, como o esterco, são comprados informalmente e simplesmente não podem ser documentados. Boa parte da resistência ao monitoramento vem daí: o dado não ajuda ninguém a tomar uma decisão prática, e muitas vezes o custo de coleta é alto demais para valer a pena.
Os participantes pediram um conjunto mínimo de indicadores generalizáveis, que combinem práticas e resultados, escalonados por maturidade para acompanhar a transição de cada produtor. Também pediram a “tropicalização” de ferramentas de MRV pensadas para agricultura de clima temperado, adaptando-as aos sistemas tropicais, usando modelagem para reduzir a amostragem primária cara e trabalhando com cientistas locais. A mesa de governança acrescentou um alerta: quando o financiamento de um projeto termina, os produtores muitas vezes não têm como arcar sozinhos com a continuidade do monitoramento.
O mercado ainda é o elo mais fraco. A demanda por produtos regenerativos no Brasil é percebida como baixa, e a certificação costuma ser cara demais para compensar. Os participantes viram mais potencial em construir o argumento em torno da resiliência e da redução do risco climático, em pesquisas que relacionem práticas regenerativas à densidade nutricional dos alimentos, e em políticas públicas de mitigação de risco cujos efeitos tendem a durar depois que os produtores veem os resultados. A assistência técnica foi outra lacuna apontada; a percepção do grupo foi a de que poucos agrônomos conhecem práticas regenerativas, e a capacitação precisa alcançar a Embrapa, e também os operadores financeiros.
Governança territorial é infraestrutura, e alguém precisa financiá-la
A discussão sobre governança começou com um diagnóstico claro de uma percepção de desconfiança e desequilíbrio de poder entre os atores são comuns, e a fragmentação piora os dois problemas, já que cada empresa olha apenas para sua própria cadeia de suprimentos e perde de vista o território como um todo. Projetos costumam ter ciclos curtos e são pensados para serem replicados, enquanto os territórios precisam de um trabalho específico e de longo prazo. Modelos que chegam prontos encontram resistência. A confiança se constrói devagar, ouvindo os produtores e cumprindo o que foi combinado.
Na prática, os produtores lidam com demandas fragmentadas de múltiplos compradores, sem nenhum suporte coordenado por trás delas. Os participantes concordaram que as empresas deveriam responder a isso apoiando-se em plataformas já estabelecidas, como o Cerrado das Águas, em vez de criar novas iniciativas, já que iniciativas com governança consolidada e metas claras de curto, médio e longo prazo têm mais facilidade para atrair coinvestimento. As associações de produtores precisam manter neutralidade e garantir que os recursos sejam distribuídos de forma justa. Pediu-se às empresas que oferecessem aos produtores um único ponto de contato, em vez de um por commodity, e que compartilhassem recursos em questões comuns, como pesquisa sobre culturas de cobertura, reduzindo custos e evitando esforço duplicado.
Nas três mesas, o mesmo princípio voltou a aparecer: as soluções que funcionam são aquelas construídas com os produtores, não para eles. Os participantes também destacaram que financiadores internacionais poderiam custear o próprio processo de governança, não apenas as práticas nas fazendas. O Regen10 Outcomes Framework inclui participação inclusiva e representação justa entre os resultados que a regeneração precisa entregar, e os produtores presentes na sala fizeram o mesmo ponto.
Onde isso deixa o trabalho
A oficina evidenciou que crédito, originação, dados, mercado e governança formam um sistema interconectado, onde nenhuma barreira pode ser resolvida isoladamente. Mais do que respostas prontas, o evento validou uma abordagem: alinhar produtores, investidores, empresas e governo para tornar visíveis e acionáveis as incompatibilidades do setor.
Esse aprendizado orienta a expansão do Cerrado das Águas como plataforma integrada de regeneração (solo, água, biodiversidade e comunidade) e molda a aplicação do Marco de Resultados da Regen10 no Quênia.
Para as empresas compradoras, fica a provocação prática: qual parte desse sistema está sob sua esfera de influência e o que é necessário para agir sobre ela?
* O Engajamento Brasil 360 foi coliderado por LAB e Regen10, com o engajamento dos produtores conduzido pela Olab. O trabalho combinou dados secundários, entrevistas com produtores e validação presencial. A maior parte da pesquisa se concentrou em cafeicultores do Triângulo Mineiro, com uma frente menor cobrindo produtores de soja e culturas rotacionadas no MATOPIBA e em Mato Grosso.
Foi a primeira vez que o Marco de Resultados do Regen10 foi aplicado em um território real. A equipe usou suas doze dimensões ambientais, sociais e econômicas como lente para interpretar os resultados, não como um checklist imposto aos produtores. O trabalho também serviu como piloto para futuros Engajamento 360 do Regen10 em outras regiões, e como um teste das premissas de investimento do LAB frente ao que os produtores realmente descreveram.
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